A gente percebe aos poucos que a vida tem seus abismos, mas que eles às vezes nos são presentes apenas pelo fato do crescimento.
Aqui nesse espaço que me é concedido, promulgo as palavras de dor e saudade que ainda perpassam por tantos abismos que você deixou em mim. O sofrimento passou por mim, figurado na morte, nessa condição que é inerente a todos, mas que parece que quando passa pela gente deixa um caos que revela um desatino e não sabemos fazer muita coisa, ele passou pela minha porta e faço questão de revelar o ensinamento que ele me deixou, porque é assim o sofrimento bate, mas, sempre nos deixa algo.
Passei a contar a distancia que hoje nos separa meu Pai, tua ida pra mim ainda revela indignação, pra mim foi tudo tão cedo, lembro-me que quando estava ao lado de teu caixão diante de tua imobilidade comecei a balbuciar no silêncio as palavras que gostaria de dizer enquanto estavas vivo, falei que havia crescido muito, que aprendera a gostar das palavras, que sabia falar bonito, que meu coração tinha ganhado profundo sentido pela entrada definitiva de Deus na minha história, falei do desejo imenso de que tu me viste na universidade, falei que cuidaria de Fernanda que colocaria sim ela pra estudar, que se um dia eu casasse olharia pra os meus filhos e com orgulho falaria de ti para eles, teus netos, eles teriam grande orgulho de ti, enfim disse tanto, que as minhas lágrimas não paravam de cair, pra mim era tudo escuro, tu no outro dia já não estaria, mas a me olhar, a perguntar pra onde eu iria, já não, mas reclamaria das minhas besteiras da minha preguiça. Lembro que pude entrar no teu quarto, ver tuas coisas, tua organização, perceber tua fé, e chorar, pelo teu cheiro perpassar meus sentidos pela última vez. Ficou em mim esse aprendizado de ser gente que tu me destes a oportunidade de aprender, de nunca desistir, e mesmo com teu orgulho e tua teimosia, me ensinastes o oficio da simplicidade, Vou guardar as vertentes de tua imagem em mim, de quando chegavas arrumado do trabalho, e que eu pegava tua caneta para aprender a escrever teu nome, ou quando ia pra tua casa e te olhava com uma colher de pedreiro aprendendo a fazer tuas coisas, em qualquer oficio me orgulhastes meu Pai.
E o que posso te dizer que uma semana após tua partida, as coisas começam a andar no vamente, minha vida volta à pressa, Nenza continua esquecida como sempre, hoje perdeu a chave de casa, teus netos estão por lá, tuas noras, teus filhos, e a saudade perpassando a vida de todos.
Continuo por aqui com o silêncio de tua morte, mas com o alarde de teus ensinamentos tocando meus sentidos, com a verdade de teu olhar, com o brilho de teu sorriso, aprendendo a da, mas valor a quem está do meu lado, já não espero, mas que ninguém morra pra que eu diga o quanto foi especial e importante na minha vida, vou olhando cada dia da melhor maneira, sofrendo, mas seguindo, pois é assim que tu gostarias de me ver, eu sei. E por fim meu pai te dizer que te amei com minha vida, e que enquanto eu respirar me lembrarei de ti, e promulgarei o que me ensinastes nos gestos que se seguirem em minha vida.
È assim não tem sofrimento que não passe por nós sem que nos deixe algum ensinamento...
‘’ To de alma limpa com você por perto sou mais longe ainda''
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
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